Latitude – para que precisamos dela?

Ivan de Almeida, dezembro de 2008

Para que precisamos de Latitude?

Vamos começar por um exemplo. Vejamos a fotografia abaixo. Havia um grande contraste entre as madeiras expostas à luz do dia e as madeiras sob o telheiro. A fotografia, para criar uma narrativa do espaço deveria conter informações de ambas as áreas, mas quando fotometramos verificamos que há mais latitude na cena do que a câmera pode captar, dentro do prognóstico de uso original de fábrica.

Cena de grande latitude. É importante para a cena a leitura das madeiras externa e daquilo sob o telheiro.

Serraria Nova Friburgo - novembro de 2008. Cena de grande latitude. É importante para a fotografia a leitura das madeiras externa e daquelas sob o telheiro na sombra profunda.

Conforme já explanado anteriormente, a fotometria foi feita nas madeiras mais claras (externas) na lateral direita da fotografia. Para haver detalhamento interno foi necessário expor o máximo possível e encontrar o limite de exposição recuperável.

As madeiras mais claras e algumas áreas no fundo da foto onde volta a haver luz do dia mostraram-se estouradas no histograma da câmera, e mesmo no histograma inicial da conversão do RAW, como já sabemos acontecer.

À direita temos a fotografia como nos apareceu

À direita temos a fotografia como nos apareceuno conversor tão logo a abrimos. As áreas em vermelho mostram as regiões estouradas. O histograma superior corresponde a essa imagem e podemos ver como ele encosta na lateral direita do gráfico se forma uma coluna. Essa coluna significa "tudo o que está além do gráfico" (ou estourado). No gráfico inferior já aconteceu a recuperação, e vemos que o pequeno monte existente na região das altas luzes deslocou-se para o centro do gráfico. Aquilo que estava escondido na coluna à direita ganhou forma e relevo no gráfico, terminando com um rabicho, isto é, poucas luzes muito altas na imagem.

A questão desta fotografia, então, era trazer a região das altas luzes para dentro do histograma e ao mesmo tempo evitar um escurecimento de tudo, pois o escurecimento de tudo tornaria impossível a leitura das sombras.

Quando comparamos o preview que acompanha os gráficos acima, no qual ainda não houve ampliação de latitude através da recuperação das altas luzes, com a foto final em tamanho maior, vemos que as partes mais escuras não se alteraram em suas posições no histograma ou tiveram pequenas alterações, e têm aproximadamente a mesma legibilidade na foto e no preview. Não houve clareamento dessas partes, portando não houve aumento da amplificação por software com conseqüente aumento do ruído. A qualidade das baixas luzes não foi degradada pela conversão, mas a qualidade das altas luzes foi muito melhorada.

asdfg

Comparando o preview com a fotografia tratada -gráfico inferior- dá para perceber as áreas de sombra não terem ficado menos legíveis, ao contrário. Houve uma compressão dos tons mais baixos, mas pouca, mas a legibilidade das baixas luzes é dada pelo contraste entre esses tons e os médio-escuros. Não precisava ter havido tal compressão, que foi admitida em função da estética da foto, pelo fato dela precisar esteticamente dos quase-pretos, não sendo isso uma imposição do tratamento. Caso a opção fosse levantar essas luzes elas não abririam ruído, pois seriam apenas RECOLOCADAS em sua posição original, isto é, não haveria mais ruído que na captura, e a captura superexposta tem melhor relação sinal/ruído em toda a faixa tonal. Se fosse em JPEG, para se ter os tons que há nas madeiras claras ao ar livre, as áreas escuras já teriam colapsado completamente. Ou se a exposição fosse conservadora, idem, e aí sim abriria ruído se seus tons fossem levantados.

Quando levantamos novamente uma área que antes rebaixamos, isso ainda se dará antes do demosaico, e meramente o demosaico será feito deixando aqueles tons em seu valor de captura, não mais ruidosos que isso. Rebaixar tudo e levantar novamente uma parte até o nível da captura não fará aumentar o ruído dessa parte.

O método da superexposição SEMPRE produzirá uma captura com melhor relação sinal/ruído em toda a faixa tonal. Agora, é fato haver situações onde se deve usar o RAW em uma exposição normal. Mas são referentes principalmente às condições de fotografia ou, paradoxalmente, quando se deseja que as altas luzes tenham a mais alta qualidade. Porque o método de superexposição aumenta a latitude, mas beneficia principalmente, no que tange à relação sinal/ruído, as luzes médias e baixas, que ficam mais limpas, a custa de algum sacrifício nas altas. Através dele as altas tornam-se legíveis, não -estouradas, mas não têm a mesma qualidade de texturas que temos numa captura mais conservadora. A idéia por detrás disso é que as altíssimas luzes são em geral apenas coadjuvantes e não o principal em uma foto, e tê-las um pouco menos ricas resulta em um ganho grande nos tons que realmente importam. Mas quando vamos fazer uma fotografia onde as altas luzes sejam importantíssimas, expor um pouco menos (ainda para a direita, mas menos) é o melhor. Com a experiência pessoal no método da superexposição o fotógrafo vai adquindo noção do quanto pode praticá-la tendo em vista o objetivo da foto. Por exemplo, em retratos, onde as altas luzes são importantes para as texturas de pele, superexponho um pouco menos, pois não me bastam os tons, como nas madeiras do exemplo, eu preciso também de texturas relativamente ricas.

As diversas ferramentas dos conversores nos permitem comprimir ou expandir partes diferentes do histograma. Quando comprimimos uma parte diminuimos o contraste dentro desta parte, quando expandimos uma parte, aumentamos o contraste dentro dela. Quando diminuimos o contraste diminuimos a diferença entre a luminosidade dos pixels, e isso faz diminuir o ruído perceptível. Quando aumentamos o contraste estamos distanciando um pixel do outro em termos de luminosidade, e isso evidencia o ruído.

Quando trazemos uma parte do que está fora do histograma inicial para dentro dele, estamos diminuindo o contraste global da foto. Grosso modo, o tratamento do RAW passa por duas etapas principais: recuperação e diminuição de contraste (para obter a máxima latitude)  e recriação do contraste e da luminosidade global da fotografia para obter agradabilidade e força na imagem. Isso não é uma regra para tudo, o tratamento de RAW sempre será um artesanato que cada fotografia imporá diferente. Há fotos onde não precisamos recuperar nada, onde a latitude da cena é baixa, etc. Aí é mais fácil e os capítulos seguintes serão mais úteis. Este capítulo visa mostrar como aproveitar a latitude ampliada do RAW.

Para trazer a região estourada para dentro do histograma nós dispomos de duas principais ferramentas quando usamos o Adobe Câmera RAW©. Essas ferramentes encontram-se na primeira aba do conversor, e chamam-se Exposure e Recovery.

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  1. Seus artigos deveriam ser obrigatórios pra todo mundo que compra uma digital é quer levar a sério a fotografia, estão sendo muito proveitosos pra mim e para os amigos que irei indicar. Linguagem fácil e acessível. A proposta é excelente e espero a continuidade. Muito obrigado pelo conhecimento revelado.

  2. Obrigado, Luis.
    Brevemente teremos novos capítulos. Às vezes eu preciso meditar durante algum tempo para determinar o enfoque de abordagem de um assunto. Mas vou entrar agora pelo contraste e terminar a latitude. Talvez comece a haver também uma seção de assuntos paralelos sobre RAW, pois são assuntos que não se encaixam nos capítulos mas são muito interessantes.

  3. Ivan, está de parabéns! Mudei meu olhar depois do seu blog.

    Estava olhando o gráfico da D80 no dpreview e me veio uma dúvida:

    Olhando a curva do chamado “raw recuperado”, eu reparei que a inclinação da curva vai aumentando. Na ponta mais “clara” da curva, onde a curva é mais “em pé”, existem mais tons pra cada variação de EV. Já na outra ponta, devido a inclinação “deitada”, vc vai ter menos tons entre um EV e outro. Por exemplo, pegando as pontas mesmo: De +3 para +4 EV vc tem uma variação dos valores de lightening de 45 (255 em +4 EV, 210 em +3 EV), ou seja, 45 tons entre o +4 EV e o +3 EV . Se vc for pegar a mesma variação de 1 EV, mas no intervalo -6,-5, vc vai observar que a variação tonal seria de apenas 8 tons (lightening 16 em -6 EV, e 24 em -5 EV).

    Mas vc diz no blog que os EVs mais “claros” tem menos detalhes, e que se forem eles o principal elemento da foto, deve-se expor um pouco menos a direita, para usar os EVs mais “escuros” e preservar esses detalhes. Isso aí que eu não entendi. Se nos EVs mais “claros” tem mais tons, porque os mais “escuros” são melhores?

    Outra coisa que eu fiquei na dúvida foi como o ISO entra nessa história toda.

    Mais uma vez, parabéns! O blog aqui é material de primeira mesmo!

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Freqüentando fóruns e listas de fotografia na rede, percebi haver muitas pessoas que tendo ouvido falar das vantagens do RAW como formato para a Fotografia Digital demonstravam uma surpreendente inibição em usá-lo. Comecei a compreender haver uma razão nessa inibição, derivada de uma pergunta oculta. A pergunta era: “Para que?”. Porque as enormes vantagens do formato RAW somente são completamente acessíveis se a pessoa possui uma idéia do que deseja de cada fotografia. O formato em si não contém essa resposta, e não basta colocar a câmera em RAW para obter o potencial do formato. É preciso mais: é preciso mudar a maneira de pensar a Fotografia Digital e abraçar a verdadeira forma digital de capturar e de produzir imagens. Sem isso será somente algo trabalhoso e sem sentido. É preciso, sobretudo, abandonar a idéia da foto digital como “coisa pronta” que se obtém já na captura.

Escrever sobre RAW é como acrescentar um capítulo sobre Fotografia Digital ao livro O Negativo do Ansel Adams. Ou seja, só quem “revela” ou desenvolve a fotografia digital terá interesse nisso. A comparação do RAW com o negativo do filme seria péssima -e é pessíma sob certo ponto de vista- se não fosse ela dar conta precisamente disso: Quem se interessa por RAW é o mesmo tipo de gente que se interessaria em ampliar seus negativos ao invés de mandar para um laboratório fazê-lo. E o tipo de benefício obtido é igual: é obter o controle sobre a imagem em um nível muito superior e dar às imagens um poder de expressão muito maior.

Para tentar dar algumas pistas sobre o uso do RAW é que foi feito este blog. Ele nunca será um curso organizado, nunca responderá a todas as questões. Apesar de usar o formato há quase cinco anos, tudo o que sei aprendi empiricamente. Antes de tudo, este blog falará de “o que fazer”, pois o “como fazer” sempre precisa ter uma finalidade.  Como fazer sem saber porque, nada adianta. Nesse sentido o blog é diferente da maioria das abordagens existentes, e as complementa.

Este blog não tem por objetivo oferecer treinamento em nenhum conversor específico de RAW. O que se discutirá aqui serve para todos, é uma abordagem geral da fotografia em RAW. Eventualmente usaremos um ou outro conversor para mostrar algo ou comentaremos algo sobre algum deles, mas sem intenção de ensinar a usar e sem uma abordagem extensiva de nenhum.

Há excelentes livros em português escritos pelo fotógrafo Clício Barroso sobre o assunto. Para obter um conhecimento sistematizado e estruturado provavelmente é a melhor fonte disponível. Aqui a abordagem é menos técnica e mais ligada ao resultado, embora, é claro, não se possa escapar completamente das questões técnicas. Pelo fato de ter adquirido empiricamente o conhecimento, provavelmente os artigos terão abordagens pouco ortodoxas. Isso não me parece ruim, pois complementa o trabalho de maior profundidade que já existe. De toda forma, é como consigo fazer e espero que seja útil.

Ivan de Almeida


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