Latitude – espaço tonal para a elaboração da fotografia

Ivan de Almeida, dezembro de 2008

Introdução

Um amigo, em um fórum de fotografia, após ler o primeiro artigo deste blog perguntou-me, em face da orientação de expor para a direita “Ivan,  mas, quando o histograma é deslocado para a direita, as baixas luzes também são, não é? Então, qual a vantagem?”

Serraria Nova FriburgoSerraria Nova Friburgo – 2008

Porque até agora falamos de como fazer, mas precisamos começar a falar do que ganhamos com isso. Falaremos neste capítulo e nos seguintes da latitude, dos contrastes e das cores. Este artigo falará da latitude e de como desenvolvê-la. No artigo seguinte, sobre contraste, veremos como essa latitude desenvolvida será aproveitada.

A latitude de uma captura é a diferença em Valores de Exposição (Exposures Values ou EV) entre a sua parte mais clara ainda contendo informações e a sua parte mais escura ainda contendo informações, também.

Sabemos que um arquivo de imagem de 8 bits varia a tonalidade entre 0 e 255 (255 é o maior número que pode ser expresso em 8 bits). Em 255 temos a maior luminosidade da cor. Em zero temos o preto da cor, sua menor luminosidade. Caso as três cores, vermelho, verde e azul estejam em 255, teremos o branco total.  Se uma das cores está em 255 e as outras duas em zero, teremos uma cor sem detalhes, borrada. Isso acontece muito quando fotografamos rosas vermelhas e por isso é tão difícil obter uma foto delas de boa qualidade. Ficamos com um vermelho borrado e nada mais, enquanto o resto da foto está certo. As câmeras não necessariamente colocam a parte mais clara da cena em 255 e a mais escura em 0. Ao contrário, isso é algo bastante delicado.

Inicialmente, podemos falar em latitude em duas etapas.

1) A latitude da cena.

Este é um dos grandes problemas fotográficos. Uma cena qualquer se nos apresenta com suas variações de claro e escuro e devemos traduzir isso em uma captura. Uma cena pode ter grande latitude (isto é, partes muito claras e partes muito escuras, ou, falando tecnicamente, uma grade diferrença de Valores de Exposição entre as partes mais claras e as mais escuras).

A latitude de uma cena não depende de nós, exceto em fotografias com luz controlada. Quando temos uma cena de pequena latitude -por exemplo, uma cena em um dia nublado sem luz dura- não há muito problema. Basta expor corretamente e sobrará capacidade do sensor capturar a variação entre o mais escuro e o mais claro. Mas quando a cena tem grande latitude, precisamos ser diligentes para obtermos uma captura com a maior latitude possível. Para isso as técnicas de exposição do artigo anterior são usadas, porque elas conduzem a uma captura de maior latitude.

De um ano para cá, mais ou menos, o site DPreview começou a publicar gráficos nos quais mostra essa latitude suplementar obtida com a sobrexposição do RAW. Não tenho os meios de elaborar gráficos do mesmo tipo, mas, grosso modo, eles correspondem à figura abaixo. Nela vemos como o gráfico do JPEG, do RAW e do RAW recuperado diferem, e como o RAW recuperado tem mais latitude que ambos. A figura aqui no blog não representa câmera nenhuma nem é exata, é só uma figura para dar idéia, mas quem quiser ver gráficos de câmeras concretas pode ver diretamente no DPreview seguindo os links abaixo:

Gráfico genérico tipico

Gráfico genérico típico de tradução da captura. Observar que já há latitude maior no RAW, e que esta aumenta muito quando rebaixamos o Exposure (Curva 3). Mas o cinza médio desloca-se para a direita muito mais do que recuperamos as altas-luzes, nos obrigando a reposicionar os tons por outros meios.

Links (ver o último gráfico de cada página):

Canon 50D:  http://www.dpreview.com/reviews/canoneos50d/page19.asp

Sony A900: http://www.dpreview.com/reviews/sonydslra900/page24.asp

2) A latitude da captura

A latitude da cena depende do mundo, mas a latitude da captura depende do dispositivo que usamos para capturar e de sua mídia, assim como da nossa estratégia de captura. Um dispositivo ou mídia pode ter uma latitude maior ou menor, e assim pode acontecer da latitude da cena ser podada em uma de suas extremidades (mais clara ou mais escura) ou em ambas quando o dispositivo tiver uma latitude menor do que a da cena.

Quanto maior a latitude do dispositivo, mais completa será a transcrição da cena nele.

Como vemos, se

As áreas vermelhas são as áreas clipadas na captura

Figura 1) Como vemos na figura, se a mídia tem latitude menor do que a cena, ocorrerá uma poda das luzes mais altas e/ou das mais baixas, conforme a exposição (aqui representada em vermelho).  Aquilo que ficará totalmente branco na imagem não é o branco da cena, mas um tom claro, e aquilo que será totalmente preto não será o preto da cena, mas um cinza escuro, e tudo o que for mais claro ou mais escuro que esses cinzas e existir na cena ficará na captura reduzido ao preto ou ao branco.

como podemos

Figura 2) A latitude em RAW é maior, mas não é infinita. Além de certa intensidade luminosa, há perda de informação e tudo fica no valor máximo de luminosidade (branco). A área verde representa a parte recuperável. Há recuperação tanto nas altas-luzes quanto nas baixas-luzes, mas a recuperação nas baixas luzes é de informação muito ruidosa, pois é uma região onde a relação sinal/ruído é baixa. Ao expormos para a direita as baixas-luzes também são elevadas, melhorando sua qualidade, e a área verde da direita é aquela que interessa recuperar.

A técnica de exposição visa garantir que teremos aproveitado a latitude da cena o melhor possível, obtendo a maior quantidade de informações sobre ela.

Dizendo de outra maneira, uma boa captura em RAW terá, na maior parte das vezes, a maior latitude possível, pois no RAW poderemos depois mudar a curva de contraste (próximo capítulo) e poderemos assim aproveitar as informações dos tons mais relevantes para a imagem, fazendo uma narrativa com um controle muito maior do que será mostrado e como.

Este capítulo falará de como obter a máxima latitude na conversão do RAW. Usando o já explicado para a captura, agora é hora de desenvolver essa latitude, e no futuro será hora de destruí-la criativamente, não onde os engenheiros da fabrica programaram, mas onde é melhor para a mensagem de nossa fotografia.

Por que precisamos de Latitude?

Vamos começar por um exemplo. Vejamos a fotografia abaixo. Havia um grande contraste entre as madeiras expostas à luz do dia e as madeiras sob o telheiro. A fotografia, para criar uma narrativa do espaço deveria conter informações de ambas as áreas, mas quando fotometramos verificamos que há mais latitude na cena do que a câmera pode captar, dentro do prognóstico de uso original de fábrica.

Cena de grande latitude. É importante para a cena a leitura das madeiras externa e daquilo sob o telheiro.

Serraria Nova Friburgo - novembro de 2008. Cena de grande latitude. É importante para a fotografia a leitura das madeiras externa e daquelas sob o telheiro na sombra profunda.

Conforme já explanado anteriormente, a fotometria foi feita nas madeiras mais claras (externas) na lateral direita da fotografia. Para haver detalhamento interno foi necessário expor o máximo possível e encontrar o limite de exposição recuperável.

As madeiras mais claras e algumas áreas no fundo da foto onde volta a haver luz do dia mostraram-se estouradas no histograma da câmera, e mesmo no histograma inicial da conversão do RAW, como já sabemos acontecer.

À direita temos a fotografia como nos apareceu

À direita temos a fotografia como nos apareceuno conversor tão logo a abrimos. As áreas em vermelho mostram as regiões estouradas. O histograma superior corresponde a essa imagem e podemos ver como ele encosta na lateral direita do gráfico se forma uma coluna. Essa coluna significa "tudo o que está além do gráfico" (ou estourado). No gráfico inferior já aconteceu a recuperação, e vemos que o pequeno monte existente na região das altas luzes deslocou-se para o centro do gráfico. Aquilo que estava escondido na coluna à direita ganhou forma e relevo no gráfico, terminando com um rabicho, isto é, poucas luzes muito altas na imagem.

A questão desta fotografia, então, era trazer a região das altas luzes para dentro do histograma e ao mesmo tempo evitar um escurecimento de tudo, pois o escurecimento de tudo tornaria impossível a leitura das sombras.

Quando comparamos o preview que acompanha os gráficos acima, no qual ainda não houve ampliação de latitude através da recuperação das altas luzes, com a foto final em tamanho maior, vemos que as partes mais escuras não se alteraram em suas posições no histograma ou tiveram pequenas alterações, e têm aproximadamente a mesma legibilidade na foto e no preview. Não houve clareamento dessas partes, portando não houve aumento da amplificação por software com conseqüente aumento do ruído. A qualidade das baixas luzes não foi degradada pela conversão, mas a qualidade das altas luzes foi muito melhorada.

asdfg

Comparando o preview com a fotografia tratada -gráfico inferior- dá para perceber as áreas de sombra não terem ficado menos legíveis, ao contrário. Houve uma compressão dos tons mais baixos, mas pouca, mas a legibilidade das baixas luzes é dada pelo contraste entre esses tons e os médio-escuros. Não precisava ter havido tal compressão, que foi admitida em função da estética da foto, pelo fato dela precisar esteticamente dos quase-pretos, não sendo isso uma imposição do tratamento. Caso a opção fosse levantar essas luzes elas não abririam ruído, pois seriam apenas RECOLOCADAS em sua posição original, isto é, não haveria mais ruído que na captura, e a captura superexposta tem melhor relação sinal/ruído em toda a faixa tonal. Se fosse em JPEG, para se ter os tons que há nas madeiras claras ao ar livre, as áreas escuras já teriam colapsado completamente. Ou se a exposição fosse conservadora, idem, e aí sim abriria ruído se seus tons fossem levantados. Quando levantamos novamente uma área que antes rebaixamos, isso ainda se dará antes do demosaico, e meramente o demosaico será feito deixando aqueles tons em seu valor de captura, não mais ruidosos que isso. Rebaixar tudo e levantar novamente uma parte até o nível da captura não fará aumentar o ruído dessa parte. O método da superexposição SEMPRE produzirá uma captura com melhor relação sinal/ruído em toda a faixa tonal. Agora, é fato haver situações onde se deve usar o RAW em uma exposição normal. Mas são referentes principalmente às condições de fotografia ou, paradoxalmente, quando se deseja que as altas luzes tenham a mais alta qualidade. Porque o método de superexposição aumenta a latitude, mas beneficia principalmente, no que tange à relação sinal/ruído, as luzes médias e baixas, que ficam mais limpas, a custa de algum sacrifício nas altas. Através dele as altas tornam-se legíveis, não -estouradas, mas não têm a mesma qualidade de texturas que temos numa captura mais conservadora. A idéia por detrás disso é que as altíssimas luzes são em geral apenas coadjuvantes e não o principal em uma foto, e tê-las um pouco menos ricas resulta em um ganho grande nos tons que realmente importam. Mas quando vamos fazer uma fotografia onde as altas luzes sejam importantíssimas, expor um pouco menos (ainda para a direita, mas menos) é o melhor. Com a experiência pessoal no método da superexposição o fotógrafo vai adquindo noção do quanto pode praticá-la tendo em vista o objetivo da foto. Por exemplo, em retratos, onde as altas luzes são importantes para as texturas de pele, superexponho um pouco menos, pois não me bastam os tons, como nas madeiras do exemplo, eu preciso também de texturas relativamente ricas.

As diversas ferramentas dos conversores nos permitem comprimir ou expandir partes diferentes do histograma. Quando comprimimos uma parte diminuimos o contraste dentro desta parte, quando expandimos uma parte, aumentamos o contraste dentro dela. Quando diminuimos o contraste diminuimos a diferença entre a luminosidade dos pixels, e isso faz diminuir o ruído perceptível. Quando aumentamos o contraste estamos distanciando um pixel do outro em termos de luminosidade, e isso evidencia o ruído.

Quando trazemos uma parte do que está fora do histograma inicial para dentro dele, estamos diminuindo o contraste global da foto. Grosso modo, o tratamento do RAW passa por duas etapas principais: recuperação e diminuição de contraste (para obter a máxima latitude)  e recriação do contraste e da luminosidade global da fotografia para obter agradabilidade e força na imagem. Isso não é uma regra para tudo, o tratamento de RAW sempre será um artesanato que cada fotografia imporá diferente. Há fotos onde não precisamos recuperar nada, onde a latitude da cena é baixa, etc. Aí é mais fácil e os capítulos seguintes serão mais úteis. Este capítulo visa mostrar como aproveitar a latitude ampliada do RAW.

Para trazer a região estourada para dentro do histograma nós dispomos de duas principais ferramentas quando usamos o Adobe Câmera RAW©. Essas ferramentes encontram-se na primeira aba do conversor, e chamam-se Exposure e Recovery.

Recovery, Exposure, Fill Light e Blacks

(trecho em trabalho e modificações 16/12/08)

Esses são os quatro sliders da primeira aba do Adobe Camera RAW e também do Lightroom. Esses controles são os que nos permitem esticar ou comprimir o histograma, ou seja, esticar ou comprimir a latitude total da conversão, e permitem também esticar ou comprimir trechos do histograma.

Quando usamos o Lightroom e com o mouse empurramos um desses controles, um determinado trecho do histograma torna-se de um cinza mais claro, como se o controle estivesse indexado a esse trecho. Na ordem, o controle Exposure moveria a parte média do histograma, o controle Recovery moveria a parte mais clara (extremidade direita), o controle Fill Light moveria as luzes baixas mas não quase-pretas, e o controle Blacks afetaria os quase pretos.

Figura: os quatro trechos do histograma de saída dos conversores

Na prática, isso não é assim. É bastante útil entender essa divisão do histograma em quatro áreas principais, mas quando movemos um dos controles ele arrasta o histograma todo, embora arraste mais fortemente, comprimindo ou expandindo, a parte a ele associada. Mas todo o histograma se altera, não há uma fronteira entre a ação de um dos controles e a ação de outro controle. Mesmo o Recovery, que é indexado às mais altas luzes afeta as regiões de sombra.

A ação de cada um dos controles tem uma maior intensidade na faixa a ele indexada, mas propaga-se através das outras regiões tonais. Por isso, acertar uma conversão implica em uma série de ajustes e compensações, e as compensações têm por objetivo evitar ou diminuir a propagação de um ajuste em regiões do histograma que não queremos alterar.

Quando falamos em recuperar a latitude, queremos dizer mover aquela parte da captura que parece superexposta para dentro do histograma da conversão. Isto é, a recuperação é uma relação entre a captura real e o histograma da conversão. O histograma de conversão é um histograma de saída do conversor. Ele indica aquilo que sairá do conversor, indexado pelo preview que todo conversor mostra. O que fazemos ao recuperar latitude é trazer as informações para dentro deste histograma de saída. Aquilo que estiver dentro do histograma de saída fará parte da imagem convertida com valores diferentes do preto e do branco.

Dentro da lógica que foi explicada nos artigos anteriores deste blog, nossa primeira tarefa é recuperar a sobrexposição (sobrexposição intencional, é lógico). As ferramentas utilizadas para isso são o Recovery e o Exposure. Caso nossa captura esteja toda ela clara em relação à concepção da imagem que desejamos, podemos ir diretamente ao Exposure e levá-lo a valores negativos tais como -1 (recuperação leve de uma captura levemente superexposta), -1,7 ou -2 (recuperação consistente) ou acima disso (recuperação dramática). Não necessariamente a captura suportará essa recuperação, isso depende de como for feita, esses valores só ilustram o processo.

Caso nossa captura tenha uma iluminação geral próxima da que desejamos, mas havendo partes a recuperar, o Recovery é a boa opção. Ele vai comprimir especialmente as altas luzes, e isso vai trazê-las para dentro do histograma de saída.

Na maioria dos casos usamos uma mistura das duas ferramentas, de modo a praticar valores prudentes em ambas. O controle Recovery suporta valores até 100, e isso não produz prejuízos à imagem, embora seja preciso em geral compensar o escurecimento com outros recursos que falaremos depois. Quando maior o valor, maior a compressão das altas luzes.

Esses dois controles são a chave para trazer a captura para dentro do espaço tonal de saída, mas normalmente ao usarmos os dois resulta obtermos um preview muito escuro, longe daquilo que desejamos. É preciso então adotar procedimentos compensatórios.


(artigo recebendo acréscimos conforme programa de construção dos textos explicado em A Organização do Blog https://123rawfotos.wordpress.com/about/a-organizacao-do-blog/  – última atualização deste artigo com imagens às 23:00h de 16 de dezembro de 2008)

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