Estabelecendo limites para captura em RAW

Ivan de Almeida, dezembro de 2008

Como estabelecer os limites de captura de sua câmera.

Pois bem, no artigo anterior foi dito que a captura em RAW deve se beneficiar de um espaço oculto de captura das altas luzes. Oculto porque esse espaço não é percebido como existente quando observamos o histograma da captura, porque esse histograma não é verdadeiramente do RAW e sim do JPEG acoplado.

Como sabemos, o RAW não é visível. Ele é ainda não é um arquivo de imagem. Então, dentro do arquivo que contém o RAW existe também um JPEG comprimido com o único objetivo de nos permitir ver no LCD a foto feita.

Esse JPEG nos servirá para muita coisa. Pode nos mostrar se a foto está nítida (até certo ponto), se a foto está bem composta, se a pessoa piscou, etc. Mas ela nos engana quanto a haver áreas estouradas. Por isso não podemos confiar nela totalmente. No artigo passado mostrei como uma foto onde áreas consideráveis eram mostradas estouradas no LCD, com o visor piscando sobre as altas luzes, eram plenamente recuperáveis no RAW, e até eram as áreas de melhor relação sinal/ruído.

Porém, para aproveitar isso é preciso conhecermos a nossa câmera, e é preciso realizarmos alguns testes dentro de uma metodologia que exporei abaixo. Os manuais não informam isso. Não existe literatura sobre isso. Somente recentemente (de um ano e pouco para cá) os reviews do conhecidíssimo site Digital Photography Review, ou dpreview.com www.dpreview.com passaram a trazer nos testes das DSLRs informações sobre essa parte recuperável da captura em RAW, mas ainda de forma teórica, incapaz de fornecer ao fotógrafo um guia para aproveitá-la.

Então é preciso fazermos nós mesmos o trabalho, e desenvolvermos uma metodologia para analisarmos a captura posteriormente sem sermos enganados pelo JPEG. Ou seja, aqui falaremos de duas metodologias: uma para conhecermos os limites da câmera e outra, reversa, para fotografarmos.

Estabelecendo os Limites.

Vamos antes falar desses limites. Para que são esses limites? Isso parece óbvio, mas não é. Pois, dependendo do tipo de fotografia e do que representam as altas luzes na fotografia, o limite será diferente. Por exemplo, se fotografamos uma paisagem com nuvens.  As altas luzes, os pedacinhos mais brilhantes das nuvens não precisam ser ricos em tons e texturas, bastará que elas existam. Então o limite aí será o máximo possível. Basta que consigamos recuperar um pouquinho de tons e texturas, ainda que com cores falsas (que podem ser dessaturadas depois), e as nuvens ficarão boas.  Mas se as altas luzes forem num retrato, é importante que sejam preservadas as texturas de pele e os tons delicados, então nosso limite recuará cerca de 2/3 de ponto. Porque, como em tudo na fotografia, temos de estabelecer compromissos, e a arte de estabelecer esses compromissos coerentes com a finalidade da fotografia fará a foto ser melhor ou pior.

Pois bem. A metodologia para estabelecer o limite da recuperação do RAW de cada câmera é muito simples. Consiste em fotografar um tecido claro várias vezes com a câmera no tripé e mesma abertura e foco. Na primeira vez fazemos isso centrando o fotômetro (modo parcial ou spot). Na segunda vez diminuimos a velocidade para 1/4 da usada na primeira (isto é, aumentamos 2 EVs). Depois vamos fazendo novas fotos cada uma 1/3 de EV mais exposta que a anterior, expondo cada vez mais.

Captura referencial com fotômetro centrado

Captura referencial com fotômetro centrado. A variação das cores do tecido não permitiu que o pico do histograma estivesse perfeitamente central, estando a cerca de 2/3Ev do centro. Futuramente vamos somar esses 2/3Ev ao nosso limite apurado para estabelecer o limite máximo.

Feitas as fotos, vamos abri-las num conversor de RAW e rebaixar o valor do controle Epoxure, ou Sensitizacion (a mesma coisa com dois nomes distintos), compensando a exposição a maior que fizemos e trazendo o histograma para próximo daquele da foto inicial com fotômetro centrado.

Ao fazermos isso vamos verificar que passaremos por várias etapas nas quais a recuperação variará. Se usarmos um tecido grosso mas completamente branco, vamos conseguir recuperar completamente até +2+2/3 EVs no caso de uma Canon 20D em ISO 100. Nem mesmo variação de cor haverá.

Recuperação de sobrexposção +2+2/3EV.

Recuperação de sobrexposção +2+2/3EV. Observar como o histograma inicial mostra tudo estourado, e como a conversão default está estourada. Mas baixando-se -2,7EV temos as texturas, os tons, etc. Contudo, as cores começam a fugir do natural, embora simplesmente passando o WB para Auto ou Custon tudo se normalize.

Em +3EV, começaremos a ter variação de cor. Mas ainda sera muito fácil normalizar as cores, bastando passar o WB para Auto ou para um valor customizado. No nosso caso-exemplo, a conversão acima já apresenta cores divergentes no default recuperado em -2,7 Exposure. Mas basta passar o WB para Auto que tudo se corrige. A exposição acima foi +2+2/3 acima da primeira, que já estava 2/3 acima do centro, isto é, a exposição acima está +3+1/3 acima do centro.

Em +3+1/3EVs, teremos o limite da recuperação. Ainda temos cores corrigíveis passando para Auto, mas já há perda de nitidez nas partes mais claras. Ainda está ótimo para usar para paisagens -que aliás precisam muito disso, pois precisam de latitude- quando a parte mais clara for o céu, mas já não serve para retratos.

Exposição em +3+2/3 a partir da exposição centralizada.

Exposição em +3+2/3 a partir da exposição centralizada. Observa-se claramente que já não há detalhes nas partes mais claras.

Em +3+2/3EV já entramos na faixa do irrecuperável. Já há partes do tecido que ficam bracos irremediavelmente, que não podem ser trazidos de volta nem com Exposure nem com Recovery, nem com ambos juntos.

Evidentemente, a precisão desse teste depende de garantirmos a uniformidade da iluminação sobre o pano durante a seqüência de fotos, depende da escolha do pano (eu preferi com pontos coloridos, apesar disso prejudicar a fotometria centrada perfeita, porque com diferenças de cores dá para observar outros elementos da recuperação como, por exemplo a fidelidade das cores).

Algumas coisas a mais devem ser ditas. A primeira é que dependendo da temperatura da luz ambiente haverá uma saturação dos canais primários verde-azul-vermelho diferente. Assim, o limite sempre vai ser referente a um tipo de luz próximo à luz do dia (5500K) ou à luz que for usada no teste. Usando luz de tungstênio para fotografar, o limite será outro, pois os canais vermelho e verde saturarão desequilibradamente em relação ao canal azul. Num caso desses podemos ter as texturas continuando por mais tempo no canal azul, que recebeu pouca luz, e estourando rapidamente no vermelho.

A segunda coisa a se dizer é que em cada ISO esses limites variam um pouco, e nos ISOs mais elevados os limites são maiores. A esse respeito, tenho um pequeno artigo em http://ivandealmeida.multiply.com/journal/item/76 mostrando um impressionante caso de recuperação em ISO elevado, mas impraticável na vida real.

Em termos práticos, aconselho a quem desejar fazer o teste a simplesmente fotometrar centrado e depois expor mais 3 e 1/3 pontos e procurar recuperar. O limite estará por essa região e se poupará muito tempo  desprezando as fotos intermediárias. Basta saber o limite para ISOs baixos (100 e 200), para ISOs médios (400) e para ISOs elevados (800 e 1600).

Usando os limites para fotografar na prática.

Ao fotografarmos, o processo é inverso. Sabemos o(s) limite(s) e vamos usá-los para conseguirmos a maior exposição possível, que se traduzirá na captura de melhor qualidade possível.

O primeiro passo é analisarmos as cenas para identificarmos a mais alta luz do contexto (exceto o Sol, naturalmente, ou lâmpadas). Apontaremos para ela o centro da lente e com fotometria parcial ou spot vamos centralizar o fotômetro da câmera nela. Isso feito calcularemos de cabeça quanto precisamos dividir a velocidade para obter nosso limite. Digamos 3EVs, por prudência (referência Canon 20D em ISO 100). Então se medimos 1/500s, vamos dividir pela metade três vezes. Teremos 1/250 na primeira divisão (1EV), 1/125s na segunda divisão e 1/60 na terceira divisão. Fotografando em 1/60s ou 1/50s estaremos praticando a maior exposição capaz de ser recuperada na conversão do RAW.

Todo o processo é muito simples, mas deve ser experimentado por cada um com sua câmera para obter limites confiáveis. O limite +3+1/3 de que falamos é mais de um ponto superior ao limite do JPEG, e naturalmente a tela de LCD da cãmera mostrará o JPEG embutido estourado. Por isso esse conhecimento prévio do limite é fundamental, pois para usá-lo não poderemos mais confiar no feedback do histograma da câmera. Temos de ter muito bem estabelecido o nosso limite de confiança.

A confiança nesse limite será diretamente proporcional à capacidade do fotógrafo de identificar precisamente a mais alta luz relevante para a fotografia desejada e à capacidade da cãmera de medir pontualmente. Quando não temos capacidade de medir pontualmente (caso da Canon 20D, mas também das câmeras Canon que têm medição spot – que no fundo difere bem pouco da parcial quanto à influência das vizinhanças), mediremos uma região pouco uniforme, e aí nosso limite tem de considerar isso, caindo para +2+2/3, por exemplo, por prudência.

Acima desse limite, não há recuperação e perderemos tudo. Ao usarmos RAW nós ganhamos algo concreto, cerca de 1,3 pontos de altas luzes a mais. Mas não há mágica. Quanto mais estamos próximos do limite, mais crítico ele se torna. Expor para a direita não necessita ser expor até o último limite. Uma exposição para a direita pode deixar meio ponto de prudência sobrando, e ainda assim ganhar-se-á muito em relação so JPEG.

E há, evidentemente, situações onde espremer o RAW até o fim pode ser necessário e fazer a diferença entre ser ou não possível uma determinada foto.

(artigo completo e em em revisão conforme programa de construção dos textos explicado em A Organização do Blog https://123rawfotos.wordpress.com/about/a-organizacao-do-blog/  – última atualização incremental e corretiva deste artigo às 13:30h de 07 de dezembro de 2008)

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