Pensando RAW – A Exposição

Ivan de Almeida 2008

Fotometria e Exposição para RAW

Há um trocadilho em inglês que é o título de um artigo-tutorial do prestigioso site Luminous Landscape. Este artigo chama-se “Expose (to the) Right” (REICHMANN, 2003). Grosso modo, poderia ser traduzido para “Expor para a direita”, mas o trocadilho permite entender  como “Expor Direito”. É um trocadilho muito irônico, porque denuncia ser a exposição normalmente usada em JPEG, na qual cada tom já é colocado em sua zona tonal, errada para a fotografia em RAW.

O que é expor direito em RAW? Pois bem, é expor aproveitando aquela parte da captura que é descartada na conversão para JPEG. Esta parte é denominada headroom da captura nos textos do Uwe Steinmueller no site Digital Outback. Como ele bem esclarece (STEINMUELLER, 2004), há diferenças de aproveitamento dessa parte perdida de cãmera para câmera. Alguns fabricantes deixam um headroom maior, havendo mais recuperação de altas luzes possível na conversão, outros deixam um headroom menor. As duas opções fazem sentido, a primeira opção produz altas luzes mais ricas, mas também mais ruído nas baixas luzes, a segunda opção produz uma imagem mais limpa, mas as altas luzes são mais pobres. Em minha experiência pessoal com conversões, percebo que os sensores CCD enquadram-se no primeiro tipo, e os CMOS no segundo tipo.

Não gosto muito dos termos sobrexpor ou subexpor, pois se trata apenas de uma exposição correta para o tipo de formato. Mas apenas para contrapor à exposição costumeira e mostrar suas diferenças, Expor Direito é levar a exposição ao máximo possível que o sensor suporta em RAW sem estourar as luzes, isto é: é Expor para a Direita.

É claro que isso nem sempre é possível. Expor para a Direita equivale na prática a usar um ISO menor. Nem sempre podemos usar um ISO menor, muitas vezes estamos espremidos entre a velocidade, que já e mínima, a abertura, que já é máxima, e a estabilidade da câmera, e nesses casos não podemos expor para a direita. Também nesses casos fotografar em RAW nos ajudará, mas perderemos a oportunidade de extrair da exposição tudo o que poderíamos.

Quando falo de usar um ISO menor, é preciso explicar bem. O ISO da câmera digital é produzido pela amplificação por hardware da voltagem produzida por cada célula fotoelétrica do sensor. Evidentemente isso será sempre função do que selecionamos na câmera. O que ocorre é sermos obrigados, para Expor para a Direita, a usar menos velocidade, ou maior abertura, isto é, a deixar entrar mais luz com o objetivo de termos a mesma foto que faríamos com a exposição normal em JPEG. A mesma foto? Sim, a mesma foto depois do processamento da conversão, como vimos na página anterior, mas uma mesma foto de melhor qualidade, com mais informações, com menos ruído, com cores mais refinadas. De todo modo, para efeitos práticos, se sou obrigado e expor mais um ponto para obter isso, é como se eu usasse um ISO com metade da sensibilidade.

E, o mais interessante. Embora eu tenha convertido a foto-exemplo da página anterior para ficar parecida com a captura em JPEG, esta é a mais restrita das possibilidades. A bricadeira começa agora. O único objetivo da foto-exemplo foi mostrar a existência de uma sobra de captura no RAW, sobra muito importante porque melhora a latitude da captura, e é sobre essa latitude melhorada que vamos trabalhar.

O próximo artigo maior deste blog será referente à latitude, como aproveitá-la, como converter a foto para obtê-la, etc. Mas antes disso um pequeno outro artigo será necessário, um pequeno apêndice a este. Falará sobre o método com o qual podemos conhecer a latitude de nossa câmera quando usando RAW, de modo a aproveitar aquilo já explanado.

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REICHMANN. Michael. Espose (to the) Right. Luminous Landscape. 2003. Disponível em http://www.luminous-landscape.com/tutorials/expose-right.shtml . Consulta em 17/11/2008

STEINMUELLER, Uwe. Q006_ The RAW FAQ, in The Art of RAW Conversion. 2004. Disponível em http://www.outbackphoto.com/artofraw/raw_faq/essay.html. Consulta em 17/11/2008

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  1. É complicado não usar sub e sobreexposto pois a câmera trabalha com uma referência assim…
    Entendi a idéia do “expor para a direita”.

    Obrigado!
    Fabio

  2. Todos os fotômetros que tive a oportunidade de ver na minha vida superexpõem para a direita, mas a nikon d5000 é o contrário – ela subexpõe para a direita. Demora um tempinho pra se acostumar.

    Excelente literatura, btw. Muito obrigada.

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Freqüentando fóruns e listas de fotografia na rede, percebi haver muitas pessoas que tendo ouvido falar das vantagens do RAW como formato para a Fotografia Digital demonstravam uma surpreendente inibição em usá-lo. Comecei a compreender haver uma razão nessa inibição, derivada de uma pergunta oculta. A pergunta era: “Para que?”. Porque as enormes vantagens do formato RAW somente são completamente acessíveis se a pessoa possui uma idéia do que deseja de cada fotografia. O formato em si não contém essa resposta, e não basta colocar a câmera em RAW para obter o potencial do formato. É preciso mais: é preciso mudar a maneira de pensar a Fotografia Digital e abraçar a verdadeira forma digital de capturar e de produzir imagens. Sem isso será somente algo trabalhoso e sem sentido. É preciso, sobretudo, abandonar a idéia da foto digital como “coisa pronta” que se obtém já na captura.

Escrever sobre RAW é como acrescentar um capítulo sobre Fotografia Digital ao livro O Negativo do Ansel Adams. Ou seja, só quem “revela” ou desenvolve a fotografia digital terá interesse nisso. A comparação do RAW com o negativo do filme seria péssima -e é pessíma sob certo ponto de vista- se não fosse ela dar conta precisamente disso: Quem se interessa por RAW é o mesmo tipo de gente que se interessaria em ampliar seus negativos ao invés de mandar para um laboratório fazê-lo. E o tipo de benefício obtido é igual: é obter o controle sobre a imagem em um nível muito superior e dar às imagens um poder de expressão muito maior.

Para tentar dar algumas pistas sobre o uso do RAW é que foi feito este blog. Ele nunca será um curso organizado, nunca responderá a todas as questões. Apesar de usar o formato há quase cinco anos, tudo o que sei aprendi empiricamente. Antes de tudo, este blog falará de “o que fazer”, pois o “como fazer” sempre precisa ter uma finalidade.  Como fazer sem saber porque, nada adianta. Nesse sentido o blog é diferente da maioria das abordagens existentes, e as complementa.

Este blog não tem por objetivo oferecer treinamento em nenhum conversor específico de RAW. O que se discutirá aqui serve para todos, é uma abordagem geral da fotografia em RAW. Eventualmente usaremos um ou outro conversor para mostrar algo ou comentaremos algo sobre algum deles, mas sem intenção de ensinar a usar e sem uma abordagem extensiva de nenhum.

Há excelentes livros em português escritos pelo fotógrafo Clício Barroso sobre o assunto. Para obter um conhecimento sistematizado e estruturado provavelmente é a melhor fonte disponível. Aqui a abordagem é menos técnica e mais ligada ao resultado, embora, é claro, não se possa escapar completamente das questões técnicas. Pelo fato de ter adquirido empiricamente o conhecimento, provavelmente os artigos terão abordagens pouco ortodoxas. Isso não me parece ruim, pois complementa o trabalho de maior profundidade que já existe. De toda forma, é como consigo fazer e espero que seja útil.

Ivan de Almeida


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